terça-feira, 19 de maio de 2015

MERCADO DA BOA VISTA - Aldo Lins



















Levanto-me neste dia que amanhece
E atravesso o Portal de ferro
E as pilastras: "maças portuguesas"
Símbolos dos leilões de sombras.

Onde Já se foi mercado de escravos

Hoje vende-se cravos e canelas,
Cereais, legumes, frutas, carnes e ervas
Para Eva ou Maria; " maças brasileiras".

A fachada estilo Neo-Clássico

Fala por si a sua música e poesia.
Construído paea ser o cemitério
Da antiga capela da Santa Cruz.

Os mal tratados pela vida

Boêmios, mobílias e dinossauros
Desenham as diversas cores dos pratos
Em pileques homéricos repletos de luz.

Na Ribeira da Boa Vista

Meu coração poema inacabado
Solve os acordes de um pinho
Entre pombos na praça de alimentação.

Aldo Lins




sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Diálogo silencioso com Drummond.


Tive uma existência estranha e confusa, em grande parte horrível, baixaria total. Mas acho que foi a forma com que me arrastei pela merda que fez a diferença. Hoje, olhando pra trás, acho que exibi certa compostura e classe, independentemente do que estava acontecendo.

Charles Bukowski

quarta-feira, 16 de abril de 2014

LEMBRANÇAS DE UM BINÓCULO



Nos gramados Garrincha comia a bola
Os Beatles criavam uma nova sinfonia
Jango chorava as Reformas de Base
Julião transmutava-se em cinzas no campo.

Marilyn roubava a cena de Brigitte
Marlon, um Selvagem, não tão Brando
Fittipaldi ensaiva um voo pelas pistas
Cheirava a caramelo os filmes do Elvis.

Muitas palmas para o Pagador de Promessas
Jobim dava o Tom à nossa música
A tropicália anunciava os Novos Baianos.

Os Anjos abandonavam Agostinho
Jesus curtia as canções de Clementina
E eu criava no quintal aviaozinho de papel.

Aldo Lins

terça-feira, 15 de abril de 2014

DISTANTE



Aldo Lins / Josué Limeira

Distante não são quilômetros
Distante não é longínquo
Distante são mil instantes 
Estante vazia
Que o tempo e o espaço nos separa.

Distante é a larga sala
Em que tu foges...
...do quadro na parede,
Distante é o teu sorriso
Que os teus lábios esqueceram
distante às vezes é próximo
Lado a lado
Que o vento varreu.

E do quadro em alto rellevo
Distante mesmo é a distancia
Da tinta hoje parca nuvens 
Nos cabelos meus,
Distante são horas que eu não vivi
E o meu rel´gio nunca entendeu.



quarta-feira, 4 de setembro de 2013





















BALADA PARA JOHN LENNON
Antônio de Campos

As luzes de Nova Iorque ao apagar
de teu coração perderam a cor do filamento
Manhattan uma terra de lágrimas, agora
Mas o pássaro canta: ele apenas dorme

Muitas são as maneiras de se matar um homem,
a morte é que é uma só. Se difícil
madeira e cravos, fácil um buquê de balas.
Mas o pássaro canta ainda: ele apenas dorme.

Quatro balas quentes como a rosa
acesa de Hiroshima, quatro cordas partidas,
quatro punhaladas de chumbo.
Mas o pássaro canta ainda: ele apenas dorme

O inverno chegou mais frio
e a neve sobre o teu corpo é negra
como a pele dos que no Harlem te pranteiam.
Mas o pássaro canta ainda: ele apenas dorme.

Não mais verão teus olhos puros de criança,
parados num pedaço qualquer do céu da cidade
e com a infinita impossibilidade de chorar outra vez.
Mas o pássaro canta ainda: ele apenas dorme.

Por mim irias com aquele terno branco
e um punhado de vento em teus cabelos,
mas isso nada vale pra ressuscitar canções em tua boca.
Mas o pássaro canta mais alto que nunca: ele apenas dorme

                                                                                          


















SUBVERSIVA

Ferreira Gullar

A poesia
Quando chega
Não respeita nada.

Nem pai nem mãe
Quando ela chega
De qualquer de seus abismos

Desconhece o Estado e a Sociedade civil
Infringe o código de águas
Relincha

E só depois
Reconsidera: beija
Nos olhos os que ganham mal
Embala no colo
Os que têm sede de felicidade
E de Justiça.

E promete incendiar o país.