sexta-feira, 1 de janeiro de 2016
























TENZONE

Será que as aceitarão ?
          (i.é., estas canções).
como tímida fêmea perseguida por centauros
          (ou por centuriões),
Elas já vão fugindo, urrando de terror.

Ficarão comovidos pelas verossimilitudes ?
           Sua estupidez é virgem, é inviolável.
Eu vos imploro, meus críticos amistosos,
Não saiais por aí procurando-me um público.

Deito-me com quem é livre em cima dos penhascos;
             os recessos ocultos
Já têm ouvido o eco de meus calcanhares
             na frescura da luz
             e na escuridão.

Ezra Pound

(Tradução de Mário Faustino)

















SAUDAÇÃO SEGUNDA

Fostes louvados, meus livros,
           porque eu acabara de chegar do interior;
Eu estava atrasado vinte anos
           e por isso encontrastes um público preparado.
Não vos renego,
           Não renegueis vossa progênie.

Aqui estão eles sem rebuscados artifícios,
Aqui estão eles sem nada de arcaico.
Observai a irritação geral:

"Então é isto", dizem eles, "o contrassenso
            que esperamos dos poetas?"
"Onde está o Pitoresco?"
            "Onde a vertigem da emoção?"
"Não ! O primeiro livro dele era melhor."
            "Pobre Coitado ! perdeu as ilusões."

Ide, pequenas canções nuas e impudentes,
Ide com um pé ligeiro !
(Ou com dois pés ligeiros, se quiserdes !)
Ide e dançai despudoradamente !
Ide com travessuras impertinentes !

Cumprimentai os graves, os indigestos,
Saudai-os pondo a língua para fora.
Aqui estão vossos guisos, vossos confetti.
Ide ! rejuvenescei as coisas !
Rejuvenescei até The Spectator.
          Ide com vaias e assobios !

Dançai a dança do phallus
          contai anedotas de Cibele !
Falai da conduta indecorosa dos Deuses !
Levantai as saias das pudicas,
          falai de seus joelhos e tornozelos.
Mas sobretudo, ide às pessoas práticas -
Dizei-lhes que não trabalhais
          e que viverei eternamente.

Ezra Pound
(Tradução de Mário Faustino)

domingo, 8 de novembro de 2015


















SARAU DA BOA VISTA - Recital poético/musical - Idealizado pelo poeta Aldo Lins, aberto para todas as linguagens culturais, e que se realiza todo último Sábado do mês na Rua do Hospício, em frente ao Teatro do Parque.






















POEMA DA BUCETA CABELUDA

A buceta da minha amada
tem pelos barrocos,
lúdicos, profanos.
É faminta
como o polígono-das-secas
e cheia de ritmos
como o recôncavo-baiano.

A buceta da minha amada
é cabeluda
como um tapete persa.
É um buraco-negro
bem no meio do púbis
do Universo.

A buceta da minha amada
é cabeluda,
misteriosa, sonâmbula.
É bela como uma letra grega:
é o alfa-e-ômega dos meus segredos,
é um delta ardente sob os meus dedos
e na minha língua
é lambida.

A buceta da minha amada
é um tesouro
é o Tosão de Ouro
é um tesão.
É cabeluda, e cabe, linda,
em minha mão.

A buceta da minha amada
me aperta dentro, de um tal jeito
que quase me morde;
e só não é mais cabeluda
do que as coisas que ela geme
quando a gente fode.

(Bráulio Tavares)
















Aquele que o meu coração ama
não encontra em lado algum
o incenso que de meus olhos rompe
para ensinar a prender o corpo das mulheres
abandonadas fora de horas
às portas da cidade
mas sabe que para todas as distâncias
há uma ave enlouquecendo que parte
do tempo
e a túnica que dispo entre os seus dedos
é a espada que os reis ungiram
para enfrentar a ameaça das manhãs
em que tudo acorda.

ALICE VIEIRA
in "O QUE DÓI ÀS AVES" (Caminho, 2009)

segunda-feira, 25 de maio de 2015


RIO DE JANEIRO - à Vera Lúcia Lins






Rebouças
Túnel, longo, vago e preciso
Que trouxe de volta o largo sorriso
À mulher que vi engatinhar num jardim.

Copacabana
Onde mergulhei os meus sonhos
Com a força de tua luz recomponho
Todas as cores de tua alma de querubim.

Corcovado
Desde o primeiro e mágico momento
Fez voar os medos mais intensos
Abrir as suas asas sobre mim.

Botafogo
A ti retornarei feliz outro dia
Para remoçar esta contagiante alegria
Ao ver a primavera numa linha sem fim.

Aldo Lins - Idealizador do Sarau da Boa Vista.