segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016


















SIMETRIA

Nem toda obra que se imprime
É prima da arte de Aline.
Nem toda a luz de um horizonte
Tem a mesma fonte de Candéas.

Se a poesia corre solta e pula a cerca
Me traz algo acerca de Aline.
Se a poesia corta e fere a alma
Revela a natureza de Candéas.

Se alguém brinca com as palavras
Me anima a pensar Aline.
Se o sonho se perdeu pelas esquinas
A lua brilha com o ouro de Candéas.

Nem toda música tem os acordes
Das asas de Aline.
Nem toda letra tem a métrica
Do sangue de Candéas.

Aldo Lins






Você pode me negar
uma estrela
e a minha expansão
ao infinito,
mas é aí que eu lanço
com mais força
o meu grito.

Carlos Maia

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016
















MÃOS DADAS

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.

Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer,
a paisagem vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.

O tempo é a minha matéria, o tempo presente,
os homens presentes, a vida presente.

Carlos Drummond de Andrade














SÚPLICA

                               À Joana d'Arc

Ensinai
A cavalgar os mares do teu corpo
Sereia de cactos e juazeiros
De mãos de seda e de marfim
Cabelos soltos graúnas
Nos cata-ventos bálsamo de alecrim

Iluminai
Oh! Rosa linda, o meu olhar
Porque guardo na algibeira o teu retrato
A casa nua na montanha
A estiagem nos pastos da aldeia
Que nem a tristeza estridente de um faquir
Com os seus ruídos enegrecidos de agonia
Apagará em mim teu brilho

Aldo Lins.

domingo, 3 de janeiro de 2016

























ACONTECEU-ME DO ALTO DO INFINITO

Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e través estranhos ritos

De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...

Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma cousa de alma do que é meu.

Narrei-me à sombra  e não me achei sentido.
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...

Fernando Pessoa


















DA VIDA MONÁSTICA

Eu vivo a vida em crescentes anéis
que sobre as coisas se enfiam:
o último eu talvez não chegue a completar,
mas vou tentar.

Em torno ao Deus, em torno à torre antiga,
eu giro há milhares de anos:
e ainda não sei se sou falcão, tormenta
ou formidável canto.

Rainer Maria Rilke

sábado, 2 de janeiro de 2016























SÓ

Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.

Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.


Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alteava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos.

Edgar Allan Poe