terça-feira, 28 de agosto de 2018

Moral e Cívica II, poema de Alex Polari


Eu me lembro
usava calças curtas e ia ver as paradas
radiante de alegria.
Depois o tempo passou
eu caí em maio
mas em setembro tava pelaí
por esses quartéis
onde sempre havia solenidades cívicas
e o cara que me tinha torturado
horas antes,
o cara que me tinha dependurado
no pau-de-arara
injetado éter no meu saco
me enchido de porrada
e rodado prazeirosamente
a manivela do choque
tava lá – o filho da puta
segurando uma bandeira
e um monte de crianças,
emocionado feito o diabo
com o hino nacional.

Alex Polari

Caetano Veloso - "Coração Vagabundo"

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

VAN CANTIGA A VINCENT, poema de Inaldo Cavalcanti


O vento visita o verde
No olhar maravilhado
De um homem menino.

Eu te vi no vento
- Loucura luminosa
Por um deus esquecida –
Invadir a janela
De um pobre calendário.

Eu te vi no vento
E me lembrei da vida.

Inaldo Cavalcanti

Café Preto + Céu - "Água, Fogo, Terramar"

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

02 HaiKais porno-revolucionários, de Antônio de Pádua


Hai que endurecer, mas
      com ternura aguça
Kai de boca na buça.

*****

           Não confunda
       a água que abunda na roça
com a anágua que              roça
                                    na
                         bunda

Antônio de Pádua

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

terça-feira, 7 de agosto de 2018

IDENTIDADE, poema de Aldo Lins



Aliado do céu por ser azul
Tento caminhar sóbrio
Mesmo sentindo o chacal
Nos meus sensíveis calcanhares.

Tenho cinquenta sonhos publicados
Outros tantos arquivados
Sou um cavaleiro de aquário
Pertenço a uma estrela imaginária.

Entretanto, as minhas asas rastreadas
Não alcançaram o cume das montanhas,
O cheiro da dor cinza pela estrada
Revela a tristeza de minha alma.

Mas sobre tudo ou sobre nada
Há uma calçada onde passeia o rouxinol
E uma varanda abandonada
Onde moro eu o sabiá.

Aldo Lins