quinta-feira, 5 de maio de 2011

NATAL - Aldo Lins.


Em Dezembro me despeço da solidão
Caminho solitário por trilhos azuis.

Andaimes por onde passo
Pássaros pisam leve no telhado

Se piso por estes traços
Fico perto de mim e do espaço.

A construção se ergue na noite
Com lápis e estranha régua.

Tijolos se justapôem a argamassa
A planta cresce no silêncio e na escuridão.

A obra se revelaria perfeita
Se Jesus não se suicidasse no porão.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

EU, A ROSA E A LUA - Aldo Lins.




Sorrindo canto a rosa e a lua
A rosa que foi minha um dia
E que feliz capturou o joão de barro.

A caprichosa rosa, alvorecer
No prélúdio dos raios encantatórios
Acalanta a tão bela e crescente lua.

A lua sem variações de sorrisos
Nas transitórias formas do segredo
Na madrugada fala sonambulas palavras.

Eu, refém do abstrato, ao entardecer
No esplendor dos mares vividos
Faço versos silenciosos do meu grito.

A lua na mágica janela
Com os olhos cristalinos, sem máscaras
Bate-me à porta sem receios.

Sou lual do sertão seco, mas beijo
A lua que é filha dos meus sonhos
E a rosa hoje quase sem perfume.

Este poema escrevi para Luana Karla,
filha de uma ex-namorada, que reside em João Pessoa.

terça-feira, 22 de junho de 2010

EXERCÌCIO ESPIRITUAL

Eu quis me homilhar naquela hora
Fazer de conta que era bem mais pobre
Pra que eles não sofressem com meu brilho
Clareando seus espaços pouco nobres

Mas minha alma não deixou meu corpo
Fazer-se assim tão menos do que era
Arrancou-me das mãos o gesto falso
Curtido no porão das coisas velhas

Ele só quer de mim o brilho certo
Claro, preciso, assumido, inteiro
Sem medo, sem carências, aderências
Alegre como a festa de uma estrela

E ainda pede o riso nessa cena
Está comigo e quem puder entenda.

Janice Japiassu

Carta

Composição: Carlos Drummond de Andrade




Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelhecí: olha em relevo
estes sinais em mim, não das carícias




(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que a sol-posto
perde a sabedoria das crianças.



A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.



É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

As Cismas do Destino - Augusto dos Anjos.

I

Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!


Na austera abóbada alta o fósforo alvo
Das estrelas luzia... O calçamento
Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,
Copiava a polidez de um crânio calvo.


Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!


A noite fecundava o ovo dos vícios
Animais. Do carvão da treva imensa
Caía um ar danado de doença
Sobre a cara geral dos edifícios!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Por Trás das Lentes - Aldo Lins

Canto
Mesmo sabendo que existem
Rimas passando fome
E versos sem casa para morar
Ainda assim eu canto
E canto como o solitário condor
Porque sei que um dia
Haverei de ver demolido o muro
Que se ergueu com a minha dor

Canto
Mesmo vendo um quadro negro no espelho
E um coração desenhado no peito
Com uma porta aberta para a saudade

Canto
Mesmo sentindo na boca
O gosto amargo que trago
Porque é neste canto
Que crio e formo
Este mundo louco, consciente
De poeta, de maluco impertinente
Que tanto canto sozinho
Como na multidão, no entanto encanto
Que no brilho ou no opaco deixo semente

Canto
E este canto alegre
Esconde este trapo
Porque é neste canto
Que eu sei que há em algum lugar
Num solitário canto
Um sabiá, um rouxinol
A murmurar também seu pranto

Canto
E este canto de guerra
Me ensina a viver em paz
Porque é neste canto
Que disfarço e encanto
E fujo do pranto
Por este ser acalanto

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Lançamento do Livro "Alma de Vidro" - Aldo Lins

Lançamento do livro "Alma de Vidro", de Aldo Lins
será dia 16 de Dezembro, ás 19h, no Teatro Mamulengo,
praça do Arsenal da Marinha -
Recife Antigo.

Paraibano, natural de Cajazeiras e
radicado há 17 anos em Recife,
o poeta Aldo Lins traz no livro
prefácio de Jaci Bezerra e orelha por Ângelo Monteiro.
A edição assinada pela Grupo Paés
vem para fazer sua poesia romper fronteiras.