terça-feira, 22 de junho de 2010

EXERCÌCIO ESPIRITUAL

Eu quis me homilhar naquela hora
Fazer de conta que era bem mais pobre
Pra que eles não sofressem com meu brilho
Clareando seus espaços pouco nobres

Mas minha alma não deixou meu corpo
Fazer-se assim tão menos do que era
Arrancou-me das mãos o gesto falso
Curtido no porão das coisas velhas

Ele só quer de mim o brilho certo
Claro, preciso, assumido, inteiro
Sem medo, sem carências, aderências
Alegre como a festa de uma estrela

E ainda pede o riso nessa cena
Está comigo e quem puder entenda.

Janice Japiassu

Carta

Composição: Carlos Drummond de Andrade




Há muito tempo, sim, não te escrevo.
Ficaram velhas todas as notícias.
Eu mesmo envelhecí: olha em relevo
estes sinais em mim, não das carícias




(tão leves) que fazias no meu rosto:
são golpes, são espinhos, são lembranças
da vida a teu menino, que a sol-posto
perde a sabedoria das crianças.



A falta que me fazes não é tanto
à hora de dormir, quando dizias
“Deus te abençoe”, e a noite abria em sonho.



É quando, ao despertar, revejo a um canto
a noite acumulada de meus dias,
e sinto que estou vivo, e que não sonho.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

As Cismas do Destino - Augusto dos Anjos.

I

Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!


Na austera abóbada alta o fósforo alvo
Das estrelas luzia... O calçamento
Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,
Copiava a polidez de um crânio calvo.


Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!


A noite fecundava o ovo dos vícios
Animais. Do carvão da treva imensa
Caía um ar danado de doença
Sobre a cara geral dos edifícios!

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Por Trás das Lentes - Aldo Lins

Canto
Mesmo sabendo que existem
Rimas passando fome
E versos sem casa para morar
Ainda assim eu canto
E canto como o solitário condor
Porque sei que um dia
Haverei de ver demolido o muro
Que se ergueu com a minha dor

Canto
Mesmo vendo um quadro negro no espelho
E um coração desenhado no peito
Com uma porta aberta para a saudade

Canto
Mesmo sentindo na boca
O gosto amargo que trago
Porque é neste canto
Que crio e formo
Este mundo louco, consciente
De poeta, de maluco impertinente
Que tanto canto sozinho
Como na multidão, no entanto encanto
Que no brilho ou no opaco deixo semente

Canto
E este canto alegre
Esconde este trapo
Porque é neste canto
Que eu sei que há em algum lugar
Num solitário canto
Um sabiá, um rouxinol
A murmurar também seu pranto

Canto
E este canto de guerra
Me ensina a viver em paz
Porque é neste canto
Que disfarço e encanto
E fujo do pranto
Por este ser acalanto

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Lançamento do Livro "Alma de Vidro" - Aldo Lins

Lançamento do livro "Alma de Vidro", de Aldo Lins
será dia 16 de Dezembro, ás 19h, no Teatro Mamulengo,
praça do Arsenal da Marinha -
Recife Antigo.

Paraibano, natural de Cajazeiras e
radicado há 17 anos em Recife,
o poeta Aldo Lins traz no livro
prefácio de Jaci Bezerra e orelha por Ângelo Monteiro.
A edição assinada pela Grupo Paés
vem para fazer sua poesia romper fronteiras.

domingo, 15 de novembro de 2009

Soluços do Derradeiro Canto - Aldo Lins

Sonhei voando entre catedrais e cemitérios
Pó cinza e a alma pomba azul no céu
Velas acessas sobre o mármore negro
Sentinelas agora sem forma e sem cor.

Rastejam vermes fieis companheiros
Famintos e sequiosos de uma carne fria
Na parede uma moldura desbotada
Onde já se vê gasta a juventude.

Um terno escuro para a solenidade
A posse nos termos do obituário,
E na gaveta murmura o triste diário.

A luz então se fragmenta no espaço
E o tempo que assistia a tudo agitado
Agora dorme silenciosamente sem asas.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Estigma - Aldo Lins

Estigma

"A minha alma é um grito.
E toda a minha obra é um comentário
sobre esse grito."
(Nikos Kazantzakis)

Acordei chorando
Jorrava de dentro de mim
Toda uma denúncia de tudo aquilo que sou.

Vagabundo, maluco, mendigo, moribundo,
anarquista, amante, poeta e sonhador.

Não me conheço,
Aliás, só por fotografia
Não sou lavoura nem edifício.
Sou um homem que passou fome
Escarrou sangue
E foi preso como anarquista.

Também não sei mais sorrir
A minha pele hoje
É uma tatuagem cheia de escamas.

Até o meu canário fugiu da garganta
Deixando minha alma de vidro
Perdida pelos escombros
Útero da solidão.

Meus trinta anos
O que direi a eles
Quando reinar o eclipse da despedida
Haverei de doar meus olhos
Para alguém poder te ver.

Pois quem sabe um dia
Eu, hóspede da utopia
Assustado com a sombra
Dos meus próprios sonhos
Seja encontrado sem vida
Sentado num cabaré vazio.

Pintura: Edmund Munch (O Grito)